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segunda-feira, maio 27, 2024
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Estratégia para a prevenção e monitoramento da contaminação microbiana em ambientes críticos

A estratégia inicial para a prevenção da contaminação microbiana em áreas críticas deve seguir inicialmente uma linha racional de investigação para a determinação dos principais vetores de contaminação, e dos pontos críticos ao longo dos processos. Esta investigação deve utilizar todos os recursos disponíveis, incluindo provas laboratoriais e o uso de ferramentas como a de APPCC/ HACCP (Análise de Perigos e Ponto Críticos de Controle). É preciso estudar quais são os pontos vulneráveis dentro do fluxo de obtenção de um produto. E, definir as medidas corretivas, caso se façam necessárias, e em paralelo elaborar um programa preventivo que contenha limites de alerta e ação, que indiquem as tendências de contaminação em patamares próximos dos limites máximos permitidos, e ainda, desencadeie uma ação preventiva antes que algo se afaste dos limites de controle.

O máximo de informação sobre os micro-organismos presentes nos ambientes considerados críticos permite um refinamento dos programas de controle microbiológico. É importante considerar que uma dada população de células microbianas, multiplica-se em escala logarítmica, a cada espaço de tempo.  A Tabela 1 apresenta alguns exemplos de micro-organismos e os respectivos tempos de geração.  Estes dados levam a crer, por exemplo, que não é aconselhável manter em espera por longo tempo, produtos ainda em fase de processamento, sobretudo aqueles com alta atividade de água. E, a armazenagem de água purificada, somente deve ser realizada sob condições específicas de conservação.

Tabela 1. Tempo médio de geração de vários micro-organismos em meio de cultura apropriado.
Tabela 1. Tempo médio de geração de vários micro-organismos em meio de cultura apropriado.

Nesta linha estratégica, a validação dos processos de limpeza, e a determinação dos prazos de validade da limpeza de equipamentos e utensílios que entram em contato com os produtos, são medidas essenciais.

O ar que entra e sai dos ambientes industriais e, sobretudo, daqueles ambientes considerados críticos para a qualidade dos produtos ou processos, deve ser filtrado em um nível que represente segurança, no que tange contaminação microbiana, e em alguns casos, retenha contaminantes físico-químicos também. A prova disto é a recente publicação do Guia da Qualidade da ANVISA para sistemas de tratamento de ar e monitoramento ambiental na indústria farmacêutica, o qual dá suporte técnico e científico à RDC ANVISA nº. 17 de 16 de abril de 2010 (3), referente às Normas de boas práticas de fabricação para produtos farmacêuticos. Além disto, a publicação da Organização Mundial da Saúde, TRS nº. 961 em 2011 (5) apresenta diretrizes e critérios de qualidade exigidos para o ar e para sistemas de tratamento, condicionamento e exaustão (AVAC), conforme o risco existente em diversas situações, dentre outros critérios. Além disto, o Guia da OMS, indica que a filtração mínima do ar destinado às áreas de produção de medicamentos sólidos não estéreis, deve ser com filtros G4 e F8, dentre outras exigência e recomendações (5,8,9). Estas exigências específicas para a área farmacêutica abrangem além das partículas viáveis (células e esporos microbianos), aquelas partículas consideradas inertes (particulado geral), quando se tratam de áreas classificadas, conforme a RDC 17/10 (Tabela 1, Graus A, B, C e D) (3). Embora muitos outros segmentos, possuam normas definidas e aprovadas de boas práticas, a maioria destas não referencia as diretrizes específicas para a qualidade do ar em ambientes considerados críticos, tão pouco para carga microbiana em superfícies críticas.

Portanto, o mínimo que se pode esperar de uma área crítica, seja ela classificada ou somente controlada, é que não esteja contaminada com micro-organismos indicadores de falha das práticas, como por exemplo: coliformes totais, coliformes fecais (Escherichia coli) e Staphylococcus aureus, dentre outros conforme as exigências de qualidade do produto ou de cada ambiente. Além disto, as análises microbiológicas do ar dos ambientes críticos fazem parte do monitoramento desejado na rotina. Neste caso, os limites máximos aceitáveis estão definidos para áreas classificadas em Graus A, B, C e D (3). Porém, para aqueles ambientes sem esta classificação, os limites máximos aceitáveis devem ser determinados internamente a partir do monitoramento da contaminação microbiana ambiental, onde o método de exposição de placas de Petri contendo ágar caseína-soja e ágar Sabouraud é o mais comumente utilizado. Estas placas quando expostas por tempos pré-determinados, como 60 minutos até um máximo de 4 horas, demonstram o nível de contaminação de bactérias aeróbicas e fungos presentes no ar de cada ambiente analisado. Ainda em relação à amostragem de ar, os amostradores ativos coletam em alguns minutos mil litros de ar do ambiente, sendo aplicáveis para a qualificação de sistema AVAC e para o monitoramento frequente em áreas classificadas, ou aonde seja indicado seu uso.

As superfícies que possuem contato direto com os produtos em processo e matérias-primas devem apresentar baixa contagem de micro-organismos e ausência dos considerados patógenos, conforme a especificação do produto ou do ambiente. Para equipamentos, BRANNAN, 1997 (2), sugere o uso de água purificada estéril como meio de amostragem das partes internas dos equipamentos destinados à produção de produtos cosméticos, sempre que este for aceito como um método válido para a amostragem. Esta água não deverá conter mais do que 100 ufc/ml, e em alguns casos não mais do que 10 ufc/ml. Para análise direta a partir de coleta por “swab” em 100 cm² de área planar, por exemplo, se pode considerar seguro, em muitos casos, não mais do que 40 ufc/100 cm² para produtos não estéreis. No caso de produtos estéreis, o ideal é a ausência de ufc/ 100 cm² ou no máximo 10 ufc/100 cm², conforme a validação de limpeza e processo realizada em cada caso. Porém, estes limites de aceitação irão variar conforme o processo e as tecnologias utilizadas para a contenção da biocarga nos produtos. Ainda, é desejável que nos pontos de maior dificuldade de limpar, por exemplo, válvulas de saída de produto ou mangueiras de transferência, cujos produtos terão contato direto, possuam carga microbiana menor que 20 ufc/ ponto (4).

O monitoramento ambiental de rotina é uma excelente ferramenta para a análise de possíveis tendências assumidas frente aos limites máximos aceitáveis, em se tratando de contaminação. Os dados obtidos pelos controles do ar, superfícies, mãos, luvas, águas, gases, matérias-primas, produtos, etc., devem ser utilizados para sustentar ou aperfeiçoar as estratégias utilizadas para a contenção da contaminação microbiana em ambientes críticos e nos processos.

Na mesma direção, a difusão da informação em todos os níveis de uma organização, mesmo que adaptada para cada público impacta de forma significativa, e traz benefícios para o plano de gestão da qualidade. O indivíduo humano necessita por sua própria natureza, entender o objetivo de cada procedimento, norma, regra, metodologia, etc., para que possa se sentir totalmente envolvido com uma dada tarefa, e realizá-la de forma adequada e primando pelo sucesso.

Bibliografia

AMARAL, F. D. Validação de limpeza. Controle de Contaminação. Editora Nova Técnica. Ano 9, No. 96, 27-29. São Paulo, 2007.

BRANNAN, D.K. Cosmetic Microbiology. A Practical Handbook. Florida: CRC press, 1997.

BRASIL. Ministério da Saúde. Resolução – RDC n°17, de 16 de abril de 2010.  Boas Práticas para a Fabricação e Controle de Produtos Farmacêuticos. Brasília: ANVISA, 2010.

NICOLÓSI, M. Validação de Limpeza exige equipe multidisciplinar. Controle de Contaminação. Editora Nova Técnica. Ano 10, No. 112, 20-27. São Paulo, 2008.

WHO. Good manufacturing practices for pharmaceutical products: main principles, Annex 5, Geneva, WHO Technical Report Series No. 961 (2011). www.who.int/

PERRY, J.J.; STALEY, J. T. Microbiology: Dinamics & Diversity. Washington: College Publishing, 1997.

RUSSELL A. D.; HUGO, W.B.; AYLIFFE G. A. J. Principles and pratice of desinfection, preservation and sterilization. Oxford: Blackwell Scientific, 1982.

THE United States Pharmacopeia. 35 ed. Rockville: Mack Printing, 2012.

ZARDO, H.; AMARAL, F.D. Contribuição do sistema AVAC na redução de riscos. Controle da Contaminação. Editora Nova Técnica. Ano 13, No. 145, p. 14-18. São Paulo, 2011.

Fernando Daniel Amaral – Farmacêutico Industrial, Mestre em Microbiologia
Consultor Técnico – www.unicasuporte.com.br
fdamaral@terra.com.br

Este artigo foi revisado em 2013 a partir da sua publicação inicial na Revista Fármacos & Medicamentos, Nº. 67 – Ano XII – Julho/Agosto/ Setembro de 2011. Editora RCN. Leia aqui a primeira parte deste artigo.

 

 

One thought on “Estratégia para a prevenção e monitoramento da contaminação microbiana em ambientes críticos

  • Excelente publicação. Preciso de informações sobre referências no controle de salas utilizadas para ensaios microbiológicos.

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