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quarta-feira, fevereiro 28, 2024
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Fábrica do Butantan consome R$ 239 milhões em 9 anos e não funciona. Diretor é exonerado

Em “um dia histórico”, segundo as suas próprias palavras, o então governador de São Paulo, José Serra, iniciou o que seriam as obras para a primeira fábrica de derivados de sangue do país. Isto foi em 2008, e até hoje, nove anos depois e R$ 239,4 milhões em verbas públicas consumidas, o local não produziu uma única gota de plasma nas suas instalações.

Hoje, o local é um grande “elefante branco” dentro do Instituto, que fica no bairro do Butantã, na capital paulista. Com cerca de 10 mil metros quadrados, a unidade deveria estar funcionando desde 2010, produzindo medicamentos importantes, hoje importados, para o tratamento de doenças como hemofilia e Aids.

 À época, o governo de São Paulo, ao qual o instituto é vinculado, tinha a expectativa de que 150 mil litros de plasma fossem processados anualmente na planta. “A fábrica será construída mesmo que os recursos partam exclusivamente do tesouro estadual”, afirmou Serra na assinatura do contrato. “A gente sabe que aqui no Butantan qualquer investimento dá certo”, declarou.

A história, no entanto, mostra que nem tudo funciona tão bem assim por lá. Auditoria obtida pelo jornal Folha de S. Paulo revela que houve erros de planejamento no projeto e que, para a fábrica entrar em operação, será necessário gastar mais R$ 437,6 milhões. A atual direção do instituto diz que o valor passa por revisão e que será menor.

Erros

O principal erro encontrado pela Colorado Consultoria Contábil, que a pedido do governo analisou a situação do instituto presidido pelo imunologista Jorge Kalil, é pueril: a falta de matéria-prima.

Segundo a auditoria, R$ 239,4 milhões foram gastos sendo que até hoje “não foi equacionado o acesso do Butantan ao plasma para fracionamento”, o que impede o prosseguimento do projeto.

O país produz, a partir da doação voluntária de sangue, cerca de 400 mil litros de plasma em condições de utilização terapêutica. A lei impede que o plasma a ser processados seja comprado.

Pelo acordo do Butantan com o governo federal, o instituto só pode ter acesso ao que exceder ao suprimento da Hemobras (empresa da União, localizada em Pernambuco), estipulado em 500 mil litros/ano.

Ou seja, como não havia (e nem há ainda hoje) matéria-prima garantida para o Butantan, a montagem da fábrica foi paralisada em 2010.

Com isso, equipamentos comprados há mais de seis anos estão guardados e, segundo a auditoria, “desconhece-se o seu estado operacional visto que, neste intervalo, não foram realizadas inspeções ou manutenções”.

O Butantan alega que o governo federal havia se comprometido a fornecer o plasma necessário quando a fábrica entrasse em operação, mas depois passou a priorizar a Hemobras.

Outro problema, de acordo com a auditoria, decorre do fato de que o instituto optou por utilizar uma tecnologia inovadora, mas que nunca fora implementada em larga escala em lugar algum. A capacidade de processamento dessa tecnologia, afirma o documento, é inferior à necessidade do país.

A empresa que examinou o Butantan entende que outra grande deficiência do projeto foi o aspecto econômico-financeiro. “Não foram apresentados estudos de viabilidade, o que leva à dúvida se foram feitos”, diz. “Se foram, certamente não foram feitos de forma profissional.”

Exoneração

A Secretaria de Estado da Saúde informou que decidiu mudar a direção do Instituto Butantan. A exoneração de Jorge Kalil será publicada nesta quarta-feira (22) no Diário Oficial do Estado.

O nome do novo diretor da Instituição será anunciado em breve pela Pasta. Até lá, o Instituto ficará sob responsabilidade da Coordenação de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos da Secretaria de Estado da Saúde, a qual o Butantan é subordinado.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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