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terça-feira, maio 21, 2024
ÁguaDestaque

Oportunidades e riscos nas coletas e ensaios para controle da qualidade da água purificada

Este artigo traz experiências que podem auxiliar na economia deste fundamental recurso. Nas semanas anteriores falamos sobre a qualidade da água potável e a obtenção de água purificada.

A terceira e última parte do artigo trata das oportunidades e riscos nas coletas e ensaios para controle da qualidade da água purificada.

Os procedimentos de coletas, acondicionamento e transporte devem compreender, entre outros fatores, a garantia da integridade do material amostrado. E isso não é fácil, pois os fatores que osmoticamente trabalham contra esse objetivo estão à volta.

O momento da coleta de água deve ser quase religioso. O profissional deverá estar calmo, concentrado, não realizar movimentos bruscos para não deslocar microorganismos viáveis dispersos no ar ambiente para dentro de seu frasco amostrador, além de estar vestidos de seus EPIs requeridos em seu procedimento escrito.

Os materiais e instrumentos necessários ao correto procedimento deverão estar à mão. Os paramentos deverão ser descartáveis, e aqueles de contato (luvas e gazes principalmente) descartados a cada ponto coletado. O álcool 70%, preferencialmente, contido em frasco de 100mL industrialmente produzido e envazado, pois álcool 70%, diluído pelo laboratório e acondicionados em burrifadores em farscos de 500mL ou maior, além de perderem o teor do álcool pela natural volatização, se autocontaminam ao longo do dia pela própria aspiração do burrifador, levando essa contaminação ao ponto de coleta, no ato da necessária assepsia, resultando em efeito inverso de contaminação involuntária.

Os materiais novos para coleta deverão estar acondicionados em bolsas separadas daquelas de material usado, ou de acondicionamento dos frascos coletados, pois os materiais que tiveram contato com as superfícies na coleta poderão transferir sujidades para o material novo, gerando risco de contaminação cruzada da nova amostragem.

Tempo de assepsia: sabemos por ensaios de avaliação de eficácia de desinfetantes e produtos antissépticos que a sua eficácia bactericida ou antimicrobiana requer um tempo de ação do produto frente ao microorganismo no local de assepsia. Portanto, a aplicação do produto de desinfecção no ponto de coleta, e também na superfície externa do frasco de coletas, deverá ocorrer com antecedência de cerca de 10 minutos do início da amostragem. E, caso a torneira do ponto a ser amostrado permita a desmontagem para limpeza antes da assepsia, é preferível que a desmonte e limpe, aumentando, assim, o grau de confiabilidade da eficácia no procedimento.

O momento da coleta após o procedimento de desinfecção de um sistema de tratamento de água é ponto importante. Em especial àqueles que dispõem de mecanismo de desinfecção por ozonização. Coletas prematuras, sem o devido escoamento da água após a desinfecção pode levar a resultados insatisfatórios, seja por resíduos químicos de produtos desinfetantes, seja pelo elevado nível de endotoxinas bacterianas presentes por efeito da recente oxidação de bactérias Gram Negativas, que ao se romperem por efeito do oxidante na ação desinfetante, liberam as endotoxinas em cadeia. Podemos considerar sensato que a amostragem da água após a desinfecção ocorra em intervalos durante um período de 72h do procedimento para avaliar os níveis de endotoxinas (caso estejam presentes), considerando a realização de expressivo escoamento do sistema para que se tenha um adequado enxágüe.

Os frascos utilizados na amostragem também têm sua importância no processo, ainda que todos eles tenham que garantir seu estado estéril e apirogênico para se qualificar como frasco amostrador adequado. É preferível que se utilize o frasco do tipo bolsa nasco, com lacres por hastes flexíveis. Este tipo de frasco, por não ter as tampinhas que freqüentemente são contaminadas por razão do contato com os dedos do coletador na sua parte interna, comumente cai ao chão no momento da abertura ou do fechamento, recebendo sujidades acidentalmente.

Sabemos que o teste de endotoxinas não é exigido para comprovar a qualidade de água purificada, no entanto, a presença delas será determinante para a formação de biofilme e para crescimento bacteriano depois das sanitizações.

Ensaios de Endotoxinas Bacterianas – variados métodos de análise e riscos de falsos positivos: Os ensaios de endotoxinas bacterianas em amostras de água contam com 02 métodos mais comuns, sendo um deles o tradicional gel clot.

O método gel clot, método manual, que consiste em diluir a amostra, aplicar em reagente LAL e agitar o frasco até observar-se a gelificação da amostra, ou não, tem sensibilidade para 0,125 EU/mL. E, considerando que para uma amostra de água de hemodiálise o limite é menor que 2 EU/mL, então a amostra deverá ser diluída e o resultado observado por meio de caçulos. Este método, semi-quantitativo, apesar de cumprir a tarefa básica de informar se a amostra “passa” ou “não passa”, não é uma solução que auxilie o profissional gestor na avaliação do desempenho do sistema de água, pois não informa ou quão estaria abaixo de 2 EU/mL ou quão alta estaria, caso reprovada a amostra nesta modalidade de ensaio.

Como alternativa, a tecnologia analítica disponibilizou para os laboratórios o método cinético cromogênico, que se utiliza da técnica de Elisa, onde a leitura é efetuada automaticamente por equipamento altamente sensível, e o resultado é simultaneamente comparado com os controles positivo e negativo. Esta técnica opera com um range de 0,005 EU/mL até 50 EU/mL, permitindo que se conheça a efetiva quantidade de endotoxinas bacterianas detectadas na amostra analisada. E ainda, com amostragens seqüenciais, pode-se traçar uma curva dos resultados, observando se é crescente ou decrescente o valor de endotoxinas encontrado na água de várias amostragens do sistema.

Além das vantagens tecnológicas, é uma técnica segura, confiável, reprodutiva, validada, e não é “analista dependente”, pois o estado físico e emocional do analista que agitaria o frasco quando pela técnica manual gel clot, neste caso, não interferirá no desempenho do ensaio.

Um cuidado de máxima importância que se deve ter acerca da realização dos ensaios de endotoxinas, seja pelo método manual ou cromogênico, é a garantia de que o ensaio realmente seja realizado com diluente de solução apirogênica adquirida junto ao fornecedor dos kits de ensaio, ainda que na aquisição os custos sejam representativos. Há quem pense que substituir essa solução por água estéril envasada seja uma solução econômica interessante, mas há de se considerar que uma água estéril envasada tem um limite de aceitação de até 0,25 EU/mL, se aplicada em substituição à solução apirogência irá ocasionar seqüenciais resultados com prováveis falso-positivos.

Enfim, mesmo contando com tecnologia de ponta, os “bons” resultados de um estudo minucioso sobre as condições das águas geradora e purificada, adequabilidade do sistema escolhido, validado e bem gerido, o uso racional e colaborativo dos resultados analíticos obtidos no controle de qualidade de um sistema de água robusto e estável, vai depender muito da participação de profissionais preparados e comprometidos com os objetivos.

Maximino Bernardes Neto Gerente comercial da Medlab – Laboratório de Análises
Colaboração: Rodolfo Cosentino – diretor da Giltec e colaborador técnico do Portal Boas Práticas

One thought on “Oportunidades e riscos nas coletas e ensaios para controle da qualidade da água purificada

  • Sueki Tsukuda

    ótimo trabalho…
    Nas amostragens assépticas …
    Recomendamos usar a solução sanitizante de álcool 70% esterilizada por filtração por membrana de 0,22 um.
    Pois a solução alcoólica pode conter micro organismos.

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